E hoje mais que nunca quero ficar

Sempre tive medo dessa história de pertencer... Pertencer a alguém, a um lugar, a um sentimento, os pronomes possessivos sempre me assustaram e a meu ver não me caiam bem, não era agradáveis nem aos olhos, ouvidos e nem mesmo ao coração.
Recordo-me de ouvir a música Ovelha Negra da Rita Lee é me sentir extasiada, e acredite era bem este o sentimento quando eu cantava " Levava uma vida sossegada,gostava de sombra e água fresca!Meu Deus quanto tempo eu passei sem saber!Uh!Uh!...  Foi quando meu pai me disse:"Filha, você é a Ovelha Negra da família"Agora é hora de você assumir Uh!Uh!E sumir!..." (desculpa empolguei) mas voltando esta era uma das músicas que me inspirava nessa minha loucura de "despertencer" (está palavra passa a existir agora kk). Não que eu fosse o tipo aventureira, de sair rodando o mundo com cabelos ao vento, mesmo tendo cogitado isso zilhões de vezes, gostava apenas de não me fixar, depender, e menos ainda "esperar" por abraços, carinhos e afagos, e acho que por relutar a eles eu gostava de não te-los... Parece loucura eu sei mas me conforta que apenas um louco reconheça a loucura do outro...
Sentir me ovelha negra era libertador,eu acreditava que não sentir algumas sensações fizessem de mim uma pessoa forte e eu tola não sabia que tal fortaleza se tratava apenas de disfarce, não existe vida sem pertencer, mas eu não entendia isso...
Viver sozinho era bem melhor, eu traçava planos para uma longa vida solitária, fazia de tudo e insistia em não ser notada ou mesmo percebida, me agradava apesar de minha rebeldia, entrar em alguns lugares e não ser notada, sabe aquela sensação de "eu não sou daqui" gostava dela... Era eu  e eu contra o mundo...
Mas houve um dia em que isto mudou, um par de olhos me encontrou e gostei da sensação de me ver neles, gostei do riso torto, do arrepio ao sentir o perfume inebriante, mas como eu só sou verdadeiramente eu se relutar, manter me escondida me agradava, mesmo que a intensidade dos pronomes possessivos, e toda aquela historinha de pertencer me instigasse, não sentir e não confessar eram ser o"eu"descoberto... Não que a minha parte desconhecida assustasse alguém que não fosse eu, mas confesso que a outra parte da música soava como um alerta para o novo "Baby Baby Não adianta chamar quando alguém está perdido procurando se encontrar.Baby Baby Não vale a pena esperar Oh!Não!Tire isso da cabeça ponha o resto no lugar Ah!Ah!Ah!Ah!Tchu!Tchu!Tchu! Tchu!Não!Oh!Oh!Ah!Tchu!Tchu!Ah!Ah!..." (viu intimidade faz as pessoas se empolgarem) e era isso lá no fundo que eu temia, que a intimidade me fizesse depender de algo que eu pudesse perder e perdi...Tanto o par de olhos quanto o medo de pertencer.
E hoje mais que nunca quero ficar, quero mais que uma casa quero um lar, desses com crianças no jardim, com família reunida pra almoço de domingo,quero ter motivos pra voltar pra casa após um dia de trabalho e me jogar no sofá... não pensando bem é melhor se nos braços de alguém que me lembre todo dia o prazer de "pertencer a...", e por falar em ser de alguém hoje mais que nunca sei que quero brigar pra fazer as pazes, quero mais que nunca ter raízes e sugar do solo do pertencer os nutrientes que embelezam a vida de quem decide e se permite ser... E em meio a tudo que hoje quero ser, existe a possibilidade destes desejados braços fortes em dias de inverno não chegar, mas descobri que hoje mais que nunca quero pertencer a mim, mais que nunca estar consciente de que ninguém mora em uma casa sem devidos cuidados, então antes de ser tua e de morares em mim saiba que me pertenço mas deixarei que também venhas morar em mim...
Tenho agora não mais planos pra uma longa vida solitária e sim planos para noites de insônia, para o seu café e para o meu chá... E posso afirmar com propriedade que vais gostar de entrar... E ficar...

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