domingo, 16 de abril de 2017

"Juntas somos Gigantes"

Foto: Fernando Frazão
Estava aqui pensando no caso do ator José Mayer e do cirurgião plástico e ex BBB Marcos e de tantos outros casos de assedio ou violência contra mulher. E a violência é um caso tão absurdo que ocorre nos lares, lugares e com as pessoas mais improváveis de se suspeitar. Há algum tempo a escritora cristão Joyce Meyer revelou que o seu pai abusou dela pelo menos umas 200 vezes, e usou inúmeros momentos da ausência da mãe para fazer isso.
           
            O abuso sexual é algo tão vergonhoso que ninguém fala sobre, e no Brasil, a cada 12 segundos uma mulher é assediada ou violentada de diversas formas, conter até 12 e terá mais uma, serão aproximadamente 5 a cada minutos, cerca de 100 enquanto eu escrevia e mais algumas enquanto você lia este texto, e antes de terminar de ler terá sido mais uma e outra assim que parar de ler e for pensar a respeito, e assim o número só irá aumentar, como num ciclo vicioso, uma bola de neve que se amplia assustadoramente pelas vezes em que não comentamos o assunto e sobretudo pela impunidade, pela ausência de um grito de socorro e até mesmo pela falta de olhos e ouvidos atentos para o outro, já não somos mais pessoas com quem outras pessoas querem se abrir. Estamos mais aptos em fofocar à ser abrigo para quem preciso.

             Talvez lendo esse texto haja quem se identificará por já ter sofrido abuso, por estar sofrendo, e há também quem ainda é só um alvo ainda inalcançável para essa violência que começa das formas mais sutis no escritório do trabalho, na sala de chefe, na sala da faculdade, na balada quando algum mané se acha no direito de chegar pegando apenas por a menina estar com uma roupa curta. Ainda não entendo a lógica dos dias atuais onde a mulher é vagabunda e a culpada pelo abuso e violência sofrida pela roupa que veste. Como também não vou nunca ser capaz de entender quem sente prazer no desprazer, com a dor e na fragilidade do outro em algo que deveria ser uma coisa mútua.

            A cada 12 segundos uma mulher a mais revela que sim, isso é uma luta de todos, 12 segundos é mais uma mulher para nos dar certeza de que isso pode chegar a nossa porta, como pode ter acontecido com pessoas próximas a nós que ainda não teve coragem de nos contar, de pedir ajuda, de gritar por socorro, de gerar em mais pessoas a revolta com a impunidade...

Porém ainda espero que tal agressão, tal desvio de caráter e personalidade não precise bater em nossa porta, ou abraçar um dos nossos amores para nos inquietarmos o bastante para notarmos a extensão do problema, para entendermos que a luta de uma a cada 12 segundos também é nossa, precisamos sim  ter um  lado, precisamos sim vestir a camisa, precisamos de uma posição, e precisamos lutar sem que haja vítimas especificamente ligadas a nós se não fizermos isso seremos alguém na lista, alguém a mais em um conjunto de muitas, lutarmos jutos não é feminismo é união fazendo força para exigir o respeito e o limite que nos cabe, lutar para que cada vez mais pessoas não se sintam inseguras ao sair de sua casa

             E a luta começa em casa, começa em ensinar o filho  a receber um “não” em não erotizar TUDO. Em ensinar limites e a respeitar os limites do outro.. Em ensinar a  menina a exigir que seu corpo seja respeitado.. Sem essa de “ segura suas éguas que meus cavalos estão soltos”.

Toque.. beijo... sexo... carinho sem consentimento é violência... NÃO CONFUNDAM A REALIDADE!

 Estupro não é sexo, estrupo é violência, violência não traz orgasmos.

domingo, 9 de abril de 2017

Quando Casar Sara

 (Você pode ouvir ao som de Impressionando os Anjos )

 Quando nos machucávamos e corríamos para minha avó, chorando e mostrando os machucados, ela  nos beijava, as vezes colocava no colo e nos falava " Quando casar sara.", aquilo não amenizava a dor, mas amenizava o choro, a manha, pois quem se importava se quando casar sararíamos faltava tempo para casarmos.
         
         Hoje, 20 anos depois entendo o que ela dizia sem dizer com aquela frase, ela ensinava a mim e a aos meus primos que algumas coisas precisam de tempo, com o tempo hematomas desaparecem e feridas abertas nos dão sinais do tratamento a ser seguido, com o tempo feridas tratadas se tornam só cicatrizes, com o tempo frustrações e magoas são esquecidas ou resolvidas, tratadas ou ignoradas, com o tempo crianças tornam -se adultos... Como bem disse  Caetano "Tempo tempo tempo tempo és um dos deuses mais lindos. Tempo tempo tempo tempo".

    Quando estávamos  tristes ou chateados com algo, ela nos fazia um chá, geralmente de canela, e dizia que um bom chá quente aquecia o peito e acalmava o coração...
Hoje, com a morando no céu, sem nunca ter se mudado do meu coração, hoje após uma noite ferrada, hoje sentada em uma praça com uma caneca do famoso chá de canela que hoje é o cheiro que me lembra a vovó, vendo o vai e vem das pessoas, ouvindo pássaros cantarem enquanto tento ler para afastar a frustração, me dou conta de que já são quase dois anos, me virando aqui sem ouvir os conselhos dela, sem ter o colo, e sem o lembrete de que o tempo levará consigo a frustração da noite passada e todas as outras que possivelmente virão a existir.

    Hoje a chá de canela que tanto me lembra ela, não aqueceu meu peito o suficiente para aquietar meu coração, hoje lembrar que "quando casar sara" não me traz muita esperança de que algumas coisas serão saradas, hoje o tempo me fala da falta e o chá de canela me fala de colo, e mais frequentemente da falta de colo, me fala que muitas vezes as pessoas vão apenas escutar o que eu vou dizer, sem se esforçar ainda que minimamente para  me ouvir, pois sim, existe uma gritante diferença entre escutar e ouvir...

    Quando você alerta alguém que o caminho para chegar com você ao ápice, do estar, ao pico, à proximidade não é aquele eu percebo que falta pessoas que  façam nossa alma relaxar sem precisar nos pedir para nos acalmarmos, percebo que muitas pessoas ainda não entenderam que estar junto não é apenas permanecer em corpo físico mas em intenções... 

    O incomodo aumenta, então jogo o livro para um lado, e em um pedaço de folha escrevo este texto, dou um gole no chá, que rapidamente esfriou, concluo que  as relações hoje, são como o meu chá.
Deveriam aquecer, mas vão se esfriando, deixarão de aquecer, já não haverá proposito, perderá o sabor, que facilmente será esquecido.
 Hoje, após um certo tempo em que minha vó me ensinou tanta coisa, acho algumas que ela não me ensinou... Como impedir que meu coração fosse partido, ou como não deixar  o chá da caneca esfriar enquanto me distraio, ela não me ensinou então...

       Então eu completo as lições que ela me ensinou com experiencias  minhas, e percebo que não existe pessoa fria, existe quem  aprendeu a bloquear os sentimentos, existe quem entendeu que cedo ou tarde todos vão acabar mentindo e só que por motivos diferentes, é aquela coisa "geralmente, geral mente", hoje sigo completando as lições, certa de que  o tempo e a vida revelam sim, "quem sim, quem não e quem nunca", mas também fará com que  tomemos decisões em relação ao que ela me mostrar,  sigo cada vez mais convicta de que não quero relações  meia boca, não preciso de mais uma relação e uma caneca  de chá fria e sem sabor, não quero que seja preciso casar  para ser feliz, nem sei se quero mesmo casar  ( vó foi mal, mas fico com o mineiro kkk nunca me esquecerei disso...)
      Quero que o tempo me torne, mais forte, mais feliz, mais convicta de que tudo  é uma questão de escolha, uma decisão... Quero saber cada vez mais que todo machucado tem cura, todo problema  tem solução, de que quem sete vezes cai levanta oito, que tudo se resolverá quando eu decidir  me empenhar  em resolver, quero ser capaz de reconhecer quem verdadeiramente escolhe voltar  pois deseja dividir comigo a vida, o choro, o colo, o beijo, a pele e uma caneca de chá....

    Sendo assim... Obrigada vovó por todas as lições, mesmo que algumas delas eu só tenha compreendido após não ter mais suas mãos pra me afagar... obrigada por  fazer de mim parte do que sou.... e só mais uma coisa " E NO MEU CORAÇÃO, AONDE QUER QUE EU VÁ, SEMPRE LEVAREI O  SEU SORRISO EM MEU OLHAR!".