Dias sem armadura

Foto : Pinterest
   Um dos maiores e mais difíceis desafios da minha vida, não é ser a pessoa que sou, e lutar para não ser quem esperam que eu seja, é  lutar para fazer  o melhor de  mim com aquilo que as pessoas fazem comigo....
  A coisa mais pesada que já enfrentei e enfrento é ter me TORNADO FILHA ÚNICA.... E SIM, ESSE É UM TEXTO SOBRE MEU IRMÃO, UM DOS POUCOS QUE COMPARTILHO E UM DOS MUITOS QUE ESCREVI NESSES QUASE TRÊS ANOS SEM ELE...


Alguns dias consigo ouvir, falar e pensar nele ou sobre ele sem chorar, ou sem qualquer outro sentimento que eu tenha vontade de controlar, o que não é o caso de  hoje e destes últimos dias, tem sido dias em estou sem qualquer armadura que adquiri com a vida, aí a coisa pega...

   Não acredito que tenha uma forma correta de reaprender a vida sem a presença de alguém que sempre esteve ali, não acredito que algumas perdas possam ser totalmente superadas, acho que na verdade, aprendemos a  lidar com isso, de uma  forma nova e única para cada dia, não sei se é certo falar ou não falar da pessoa,mas acredito que o luto não pode ser uma prisão, acredito que a vida acabe apenas para quem vai, embora quem fique, fique também com a sensação de perda de sentido, razão ou algo assim...

 Não acredito que a dor da saudade passe, acho mesmo que se torna em algum momento mais tolerável. Não acredito que tenha feito ao meu irmão tudo de forma certa, existem coisas das quais me arrependo de não ter observado com mais cautela e  afeto e  com menos exigência e ironicamente, essas coisas são as que mais me faz falta.... Não é um arrependimento que me  faz querer  voltar no tempo para corrigi-las, é um arrependimento por não ter extraído no momento, coisas  que  hoje sou perfeitamente capaz de ver. E existem dias em que não me suporto por  isso...

     Sinto falta do telefone tocando e a voz grossa me perguntando a senha da internet, a senha do computador dele, o dia do pagamento de tal conta, sinto falta da voz, me falando o que vejo agora acontecer.... falta do dom de perder o telefone... 
     Sinto falta das cordas do meu violão se arrebentando apesar de serem novas, falta das cifras e palhetas sumirem misteriosamente, sinto falta de ter alguém  me mandando calar a boca ou mudar de música, pois já era a 14ª  vez que  eu tocava a mesma música sempre errando a mesma palavra no refrão.....

      Me faz falta passar a semana lembrando que segunda era dia de lavar roupa, porque segunda- Feira é uma dia tão foda que o máximo de atividades  não  prazerosas devem ser dedicadas a ela, me faz falta, virar uma fera por não ver as roupas no lugar para que eu soubesse quais eram as sujas....
 A falta me fala dos costumes antigos, mas por vezes é assim que me sinto, um museu sem grandes novidades, a falta me fala do que não  pode mais ser  vivido, e se eu não  posso ter, eu fico imaginando, os sobrinhos que não vão  correr na grama, da extensão dele que  não existe,assim como ele...  A saudade de quem agarra a morte, faz por  vezes  pensar: Como seria se ele estivesse aqui? É aqui que ser  livre assusta e que aceitar nossa vida sem determinada  vida assusta... Como entender que  esquecer os costumes pode não ser esquecer o "você" agora ausente?

  Então  sozinha,como estou agora, esperando ouvir la fora sua moto virando a esquina percebo que não  dá pra correr o risco de  esquecer  você.... Ah morte por que tão  dura, violenta, e repentina? Porque separar corpos sonhos e pessoas???
E tu em Dona  vida que  coisinha mais  clichê você não nos ensinar a  dizer adeus, que  piegas vivermos a lembrar de quem amamos na falta que ela faz.... Que  joguinho baixo dona  vida arrancar a armadura para notarmos que algumas  feridas sempre  precisarão de cuidados...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O maior vilão sou eu

A leveza de deixar ir quem não quer ficar...