Sobre me tornar filha única




   Eu não sei ao certo em que exato momento eu disse OK VIDA CANSEI, QUERO SE FILHA ÚNICA. Mas sei que isso aconteceu, terminei o sábado sendo a irmã mais velha de alguém, encerrei o domingo tornando me filha única...E o que eu poderia dizer sobre isso? PERDER DÓI...  E seria irônico se não fosse tão real, mas perder dói, sim, simplesmente assim dói...

        Perder um objeto dói, perder um dente dói, perder o trabalho dói, perder o CD preferido da sua banda predileta também dói,perder alguém dói... Perder um irmão, o único irmão dói... 
Porque de certa forma, você se perde um pouquinho junto, sabem aquelas fases da crise de identidade? Onde nos olhamos no espelho, e tentamos descobrir quem somos, e pra onde iremos? Pois é, perder o único irmão é bem assim! 
      
      É se olhar no espelho e fazer um esforço tremendo para se achar ali, no meio da falta que o outro faz para você, na falta que ele faz para seus pais, se achar nas incontáveis vezes em que você vai ter que lidar com um frequente "SE FULANO ESTIVESSE AQUI".
Tornar-se filha única, é também ser perdido, perdido no mês do aniversário, esquecido no dia do aniversário... E novamente isso dói, porque não estamos falando apenas de uma pessoa com seu DNA, que te atentava, que te batia, que fazia você levar a culpa de coisas que você não fez, que não está mais ali, vai além sabe... 

     Você passa a ser alvo de cobranças, para se cuidar melhor, para levar o casaco que pode esfriar e  literalmente surta só de pensar em como vai fazer para cuidar dos seus pais na velhice, com um aqui sobre seus olhos, e o outro longe...
Sempre ouvi que me tornar Mãe dos seus pais seria doloroso, mas se tornar Mãe dos seus pais sozinha é bem mais que isso... É complicado sabe... 

    É complicado ver um ir dormir chorando, por dor, remorso, culpa,ou seja lá qual for o sentimento que nunca saberei descrever, é complicado o outro não atender suas ligações, é complicado imaginar uma vida inteira adotando filhos de amigas como sobrinhos, e saber que por mais que os ame, você nunca saberá o que é olhar para o seu irmão e para o filho dele é sentir que tem alguém dando continuidade ao legado da família.
Tornar-se filha única, te torna só, anula o plano de estar junto no domingo para o almoço em família, é não ter para quem contar as artes que fez com o seu irmão, é não ter pra quem contar o dia em que ele cismou que ia voar...e ser só dói..

       A dor piora quando vemos quão infantil é a crença dos "para sempre", vivemos achando que não vai acabar sabe. Mas acaba aí a dor cresce à medida da importância em nossa vida, à medida das lembranças indo, vindo, destruíndo um pouquinho aqui, colocando algo no lugar ali.. À medida em que os dias se vão e outro chega... 

    Não me arrependo da irmã que fui, não mesmo. Eu me arrependo do simples fato de que a minha dor não mudou nem pouco minha parentela, meus primos ainda possuem seus irmãos, mas será que já imaginaram a vida sem eles antes de lançar aquela palavra dura? Antes de ficar horas, dias, semanas... Sem se falarem? Queria que as lágrimas que choro escondida fizessem com que eles se cuidassem um pouquinho mais, que olhassem para o outro é se visse ali em virtudes e defeitos... Completo e continuidade...

    É impossível se preparar para perder alguém e isso, todo mundo já está cansado de saber, mas é possível se preparar para ter a sensação de ter feito o seu melhor para o seu pedaço, ao perder alguém... Minha vó sempre dizia que quando damos o melhor de nós a alguém, é como se aquela pessoa fosse uma pérola, e quando a perdermos lembrariamos dela como um tesouro que cuidamos, mas que precisou partir. 
    
    Hoje após também te-la perdido, entendo o que ela quis ensinar avcada vez em que antes de embarcarmos de volta pra casa ela  beijava  a minha testa e do meu irmão e pedia  CUIDEM UM DO OUTRO, DEFENDAM UM AO OUTRO E SE AMEM POIS UM DIA UM SERÁ SÓ LEMBRANÇA NA VIDA DO OUTRO...

Quem dera pudesse ser eu a lembrança pra meu irmão....

   As coisas mudam... Ao perdermos o mais jovem da MINHA família, perdemos uma vida tão cheia de vida e de ânsia por viver essa vida. Que se foi de forma instantânea demais, deixando aqui perguntas demais para respostas de menos.
É um tanto quanto  ilusório esperar que eu consiga falar da exata dor que sinto e esperar que a entendam, mas quer saber o que aprendi me tornando filha única?

   Que se olhar no espelho, vai sempre te lembrar alguém além de você, que embora haja dor, latejando, é uma parte da vida apenas que te impulsiona a tentar ir sozinha a lugares que planejou ir junto, e assistir os mesmos filmes sem prestar atenção neles, só se assiste para tentar reavivar o outro em você, as fotos espalhadas na parede, serão dolorosas e você vai estar no ambiente e não vai olhar pra elas, você sabe que não tem retorno daquela pessoa, mas vai sempre esperar que ela entre pela porta e brigue com você de novo... Sabe qual a dor de se tornar filha única? Vai sempre faltar alguém que vai parecer ser melhor que  você, é quer saber mais? Isso vai destruir- te aos pouquinhos, você vai sorrir na frente de muitos o que vai chorar as escondidas... E posso ser um pouquinho mais sincera? Elizabeth Bishop, estava certa  no lindo poema  A ARTE DE PERDER...

Arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contém em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério. 
Perca um pouquinho a cada dia.
ACEITE, austera, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes,a  escala subsequente da viagem não feita.
Nada disso é sério! 
Perdi o relógio de mamãe...
Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas e um império que era meu, dois risos e mais um continente.
TENHO SAUDADES DELES. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etero que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de  perder não chega a ser mistério por muito que pareça muito sério.

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